sábado, 1 de maio de 2010

A carta

Ana Rita de Sousa
Rua da Terra.

Isabel Maria dos Santos
Praça do céu.

Isto é uma carta com destinatário mas sem morada real. De qualquer das formas escreve-la faz-me feliz como se fosse realmente possível tu a receberes. Não sei ao certo o que te desejo dizer, mas hoje não estou “virada” para a melancolia mas para recordar as coisas boas (por hoje já me chega o estado de depressão e mau humor). Sim, sinto a tua falta e desejava ver-te, abraçar-te, falar contigo, essas simples coisas, mas não é isso que quero “deitar cá para fora”.

Gostava de ser, nem que fosse apenas por um dia, novamente criança. Não com o propósito de não ter obrigações ou de ver o mundo real pintado em tons de rosa, mas para reviver todas as coisas singelas a que não dei suficientemente importância, porque não tinha razões para tal. Recordo-me agora e para sempre, com felicidade e saudade, todas as fotos inseridas na minha frágil memória. “Recortes” de tempos em que andávamos sempre juntas e em que tudo era verde, veraneado e cheio de alegria. Só te quero dizer que não esqueço.

Lembro-me das mãos ligeiramente húmidas e quentes quando brincávamos de mãos dadas e dos abraços reconfortantes que me saudavam sempre que me vias. Sinto-me alegre ao pensar nos baloiços naquele jardim com lago e árvores gigantes. Dos passeios com os carrinhos de bonecas. Das voltas que demos de bicicleta. Das noites passadas na risota. Do prado repleto de papoilas vermelhas que fomos colher. Da frescura da água que corria no rio perto de minha casa. Da descoberta da queda de água junto ao moinho abandonado. Das caminhadas pela floresta. Dos saltos para a piscina. Dos jogos de ténis. Da desavença com o cigano com quem gozamos. Das festas da terra apinhadas pelas barracas dos marroquinos e chineses. Das voltas nas cestinhas dos carrosséis. Das horas passadas em frente ao espelho a experimentar roupas. Das tardes passadas a fazer trancinhas no cabelo. Das noite longas que passávamos no café. Das brincadeiras debaixo da mesa. De como reclamavas sempre que a tua mãe te vestia um vestido. Do teu cabelo encharcado a pingar quando fizeste o teu corte de cabelo novo.
Ainda costumo passear pela floresta seguindo o trilho que me leva aquele moinho. Costumo ficar sentada nas rochas a ver a água passar, enquanto fumo um cigarro, e penso que nada faz sentido. Simplesmente parece que foste viajar para fora do país por um tempo indeterminado.

Um beijinho muito grande e cheio de saudade,

Ana

1 comentário:

  1. Às vezes também penso nisso. Penso no quão eramos felizes em crianças, em que nada nos podia afectar porque o mais importante era saber se podiamos comer mais um gelado à sobremesa, ou se escolhiamos o lápis de cera azul ou rosa para pintar a camisola do nosso boneco (aqueles só com uma bola a fazer de cabeça e uns paus a representar o resto dos membros), ou quando o mundo parecia ruir porque tinhamos de ir para a escola e só queriamos ver desenhos animados (lembro-me que acordava às 5 e tal da manhã para ver desenhos animados e a minha mãe não me deixava sair da cama porque ainda era muito cedo e queria que eu dormisse sem ter sono; lembro-me da música de abertura da Sic, aliás ainda a sei decor porque cantava-a com a minha irmã)!
    Agora tudo é diferente. Parece que as pequenas coisas que continuam a ser capazes de serem fontes de felicidade, pelo menos momentânea, diminuiram ou então a felicidade que nos dão já não é como a de antes. Já não temos lugares só nossos de brincadeira, olhamos para os baloiços e vemos que são apenas pedaços de ferro destinados a outros e não a nós, e até as árvores parecem ter perdido tamanho. Ou fomos nós que crescemos, infelizmente.
    Já não temos destas coisas no dia-a-dia: os passeios de bicicleta foram substituidos pelas idas de carro para a faculdade, porque já não se pode ficar em casa a ver desenhos animados, no meio do trânsito que é a música do quotidiano, a água está toda poluida e já não há lagos, as papoilas só na florista por 1.50 € cada uma na altura do Dia dos Namorados/Dia da Mãe, em vez de comer chupa-chupas fuma-se.
    Enfim. Mais melancólico que isto impossível, mas pensando bem, se há algum sítio em que nos é permitido ser melancólicos e deprimentes é nestes nossos cantinhos, certamente.

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