Ana Rita de Sousa
Rua da Terra.
Isabel Maria dos Santos
Praça do céu.
Isto é uma carta com destinatário mas sem morada real. De qualquer das formas escreve-la faz-me feliz como se fosse realmente possível tu a receberes. Não sei ao certo o que te desejo dizer, mas hoje não estou “virada” para a melancolia mas para recordar as coisas boas (por hoje já me chega o estado de depressão e mau humor). Sim, sinto a tua falta e desejava ver-te, abraçar-te, falar contigo, essas simples coisas, mas não é isso que quero “deitar cá para fora”.
Gostava de ser, nem que fosse apenas por um dia, novamente criança. Não com o propósito de não ter obrigações ou de ver o mundo real pintado em tons de rosa, mas para reviver todas as coisas singelas a que não dei suficientemente importância, porque não tinha razões para tal. Recordo-me agora e para sempre, com felicidade e saudade, todas as fotos inseridas na minha frágil memória. “Recortes” de tempos em que andávamos sempre juntas e em que tudo era verde, veraneado e cheio de alegria. Só te quero dizer que não esqueço.
Lembro-me das mãos ligeiramente húmidas e quentes quando brincávamos de mãos dadas e dos abraços reconfortantes que me saudavam sempre que me vias. Sinto-me alegre ao pensar nos baloiços naquele jardim com lago e árvores gigantes. Dos passeios com os carrinhos de bonecas. Das voltas que demos de bicicleta. Das noites passadas na risota. Do prado repleto de papoilas vermelhas que fomos colher. Da frescura da água que corria no rio perto de minha casa. Da descoberta da queda de água junto ao moinho abandonado. Das caminhadas pela floresta. Dos saltos para a piscina. Dos jogos de ténis. Da desavença com o cigano com quem gozamos. Das festas da terra apinhadas pelas barracas dos marroquinos e chineses. Das voltas nas cestinhas dos carrosséis. Das horas passadas em frente ao espelho a experimentar roupas. Das tardes passadas a fazer trancinhas no cabelo. Das noite longas que passávamos no café. Das brincadeiras debaixo da mesa. De como reclamavas sempre que a tua mãe te vestia um vestido. Do teu cabelo encharcado a pingar quando fizeste o teu corte de cabelo novo.
Ainda costumo passear pela floresta seguindo o trilho que me leva aquele moinho. Costumo ficar sentada nas rochas a ver a água passar, enquanto fumo um cigarro, e penso que nada faz sentido. Simplesmente parece que foste viajar para fora do país por um tempo indeterminado.
Um beijinho muito grande e cheio de saudade,
Ana