terça-feira, 13 de julho de 2010

o amor não é PERFEITO

O Amor não é perfeito. As relações estão repletas de dor e de desavenças. As coisas deixam de ser encantadas e as promessas doces por vezes tornam-se, aos nossos ouvidos, meras mentiras. As palavras perdem significado ao serem ditas vezes e vezes sem conta. Assim escondemo-nos nos filmes e devoramos livros que contam histórias que sonhávamos viver e deste modo somos felizes, tentando fazer da nossa vida uma história digna de um livro do top de best sellers.

sábado, 1 de maio de 2010

A carta

Ana Rita de Sousa
Rua da Terra.

Isabel Maria dos Santos
Praça do céu.

Isto é uma carta com destinatário mas sem morada real. De qualquer das formas escreve-la faz-me feliz como se fosse realmente possível tu a receberes. Não sei ao certo o que te desejo dizer, mas hoje não estou “virada” para a melancolia mas para recordar as coisas boas (por hoje já me chega o estado de depressão e mau humor). Sim, sinto a tua falta e desejava ver-te, abraçar-te, falar contigo, essas simples coisas, mas não é isso que quero “deitar cá para fora”.

Gostava de ser, nem que fosse apenas por um dia, novamente criança. Não com o propósito de não ter obrigações ou de ver o mundo real pintado em tons de rosa, mas para reviver todas as coisas singelas a que não dei suficientemente importância, porque não tinha razões para tal. Recordo-me agora e para sempre, com felicidade e saudade, todas as fotos inseridas na minha frágil memória. “Recortes” de tempos em que andávamos sempre juntas e em que tudo era verde, veraneado e cheio de alegria. Só te quero dizer que não esqueço.

Lembro-me das mãos ligeiramente húmidas e quentes quando brincávamos de mãos dadas e dos abraços reconfortantes que me saudavam sempre que me vias. Sinto-me alegre ao pensar nos baloiços naquele jardim com lago e árvores gigantes. Dos passeios com os carrinhos de bonecas. Das voltas que demos de bicicleta. Das noites passadas na risota. Do prado repleto de papoilas vermelhas que fomos colher. Da frescura da água que corria no rio perto de minha casa. Da descoberta da queda de água junto ao moinho abandonado. Das caminhadas pela floresta. Dos saltos para a piscina. Dos jogos de ténis. Da desavença com o cigano com quem gozamos. Das festas da terra apinhadas pelas barracas dos marroquinos e chineses. Das voltas nas cestinhas dos carrosséis. Das horas passadas em frente ao espelho a experimentar roupas. Das tardes passadas a fazer trancinhas no cabelo. Das noite longas que passávamos no café. Das brincadeiras debaixo da mesa. De como reclamavas sempre que a tua mãe te vestia um vestido. Do teu cabelo encharcado a pingar quando fizeste o teu corte de cabelo novo.
Ainda costumo passear pela floresta seguindo o trilho que me leva aquele moinho. Costumo ficar sentada nas rochas a ver a água passar, enquanto fumo um cigarro, e penso que nada faz sentido. Simplesmente parece que foste viajar para fora do país por um tempo indeterminado.

Um beijinho muito grande e cheio de saudade,

Ana

domingo, 21 de março de 2010

Árvore


A nossa vida é como uma simples árvore que cresce ao longo dos anos. Conforme as pessoas desaparecem da nossa vida também as folhas caem. As nossas decisões criam as flores. A felicidade vai e vem (fica por um indeterminado espaço de tempo que pode ser longo ou resumir-se a apenas escassos segundos) conforme as estações do ano que modificam a árvore desde a alegre primavera passando pelo Verão divertido, seguido do Outono melancólico e terminando no Inverno triste, para que mais tarde o ciclo recomece. As relações são criadas ao longo dos anos assim como os ramos que acarretam as inúmeras folhas. E eventualmente a árvore acabará por murchar, ficará seca e sem as belas cores que a caracterizavam.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Carolina

Chamava-se Carolina, tinha cabelos enormes cor de caju com caracóis bem definidos. Os olhos eram escuros, grandes e brilhantes como se estivesse sempre a sorrir e as pestanas densas e encurvadas. Era extremamente bonita, filha de boas famílias e com todos os bens materiais que poderia desejar. Era uma rapariga que transbordava felicidade, ou melhor, era a felicidade em si. Sempre com um sorriso na cara, nada podia abater aquele bem-estar que tinha com a vida. Estudar naquela faculdade foi o sempre quis, era muito aplicada e bem sucedida. Parte das tardes livres passava-as no parque sozinha a ler os seus livros a quem chamava “as minhas bíblias”. Adorava sentir o vento e sol na cara, o cheiro a verde da relva ainda molhada, o rio a correr embatendo nas rochas, o riso das crianças a brincar no parque... Aqueles momentos de solidão ao fim da tarde faziam-na realmente alegre, perdia-se nas histórias e sonhava com a vida encantada que desejava ter. No meio do estudo intensivo conseguia arranjar tempo para os amigos, namorado e hobbies.

Naquele dia fazia um mês. Estava agora muito mais magra, com olheiras fundas e pretas como carvão, o brilho nos olhos nunca mais voltou sendo substituído por uma íris vazia. Isolou-se por completo no seu mundo amargo de tons escuros e deixou de estar com os seus amigos. Já não lia as suas bíblias e apenas passava as tardes no parque devido à rotina. Ficava lá com os seus olhos desabitados e agarrada aos joelhos. A sua cabeça estava cheia de memórias dolorosas, de gritos revoltados e o seu coração… esse já não parecia lá estar.

Estava um dia abafado de Verão e o sol queimava-lhe a pele. Vagarosamente percorreu o caminho do parque até casa sempre de olhos postos no chão, por pouco não foi atropelada na última passadeira para a sua humilde habitação. Abriu a porta e dirigiu-se para a casa de banho, lá tirou as sapatilhas de lona, as calças de ganga molhadas pelo suor e a camisa de linho. Olhou-se ao espelho para observar aquela rapariga frágil e perturbada em que se tornara. Passou a cara por água e ali ficou alguns segundos a olhar a pia branca. Dirigiu-se para o quarto e lá vestiu um vestido branco por cima do joelho com alças finas e calçou as sandálias castanhas de couro. Saiu de casa e caminhou em direcção à ponte vermelha, pelas ruas vazias onde só se conseguia ouvir o pouco vento que soprava e os passarinhos a cantar. Quando finalmente lá chegou descalçou-se e percorreu, em bicos de pés e com os olhos fechados, o corrimão da velha ponte. Por fim parou. Olhou para o pequeno riacho que corria por baixo de si (provavelmente pequeno devido à altura gigantesca da ponte) e para os penhascos afiados que abrangiam as margens do rio. Agarrou com toda a força o pequeno colar prateado que transportava fielmente ao peito (Era simples em forma de coração e com minúsculos brilhantes em redor). Nunca mais o conseguira tirar desde que ele morrera. “Não tenho medo… Não quero mais estar aqui! Não haverá nada pior do que permanecer viva num mundo onde não posso ver quem mais amo…”. E assim fechou os olhos e deixou-se cair, o vento ondulava-lhe o vestido branco e a adrenalina percorria-lhe todo o corpo.

"E assim chegou tudo ao fim, o negro… Tudo agora estava bem".

Tinha apenas 18 anos, era bela e tinha a vida toda pela frente. De que lhe serviam as roupas mais bonitas? A sua incondicional beleza? Num dia tem-se tudo, no outro não se tem nada…

segunda-feira, 1 de março de 2010

O que gosto...

Do teu sorriso e das tuas gargalhadas barulhentas,
Da maneira estranhamente interessante que és,
De todas as brincadeiras estúpidas que temos,
Da forma como fazes tudo parecer um filme,
Daquelas surpresas simples e especiais,
Daqueles abraços fortes que me dás,
Das mãos enormes que me mimam,
Daquele olhar vazio e pensativo,
Dos lábios perfeitos e molhados,
Da cara de sono ao acordar,
Da forma como me olhas,
Do toque das tuas mãos,
Do cabelo despenteado,
Do teu corpo quente,
Da cabeça confusa,
Do corpo moreno,
Da tua bondade,
Da língua suave,
Das diferenças,
Do teu cheiro,
Da tua calma,
Do teu sinal,
Sim! Dele,
Do João.