quinta-feira, 11 de março de 2010

Carolina

Chamava-se Carolina, tinha cabelos enormes cor de caju com caracóis bem definidos. Os olhos eram escuros, grandes e brilhantes como se estivesse sempre a sorrir e as pestanas densas e encurvadas. Era extremamente bonita, filha de boas famílias e com todos os bens materiais que poderia desejar. Era uma rapariga que transbordava felicidade, ou melhor, era a felicidade em si. Sempre com um sorriso na cara, nada podia abater aquele bem-estar que tinha com a vida. Estudar naquela faculdade foi o sempre quis, era muito aplicada e bem sucedida. Parte das tardes livres passava-as no parque sozinha a ler os seus livros a quem chamava “as minhas bíblias”. Adorava sentir o vento e sol na cara, o cheiro a verde da relva ainda molhada, o rio a correr embatendo nas rochas, o riso das crianças a brincar no parque... Aqueles momentos de solidão ao fim da tarde faziam-na realmente alegre, perdia-se nas histórias e sonhava com a vida encantada que desejava ter. No meio do estudo intensivo conseguia arranjar tempo para os amigos, namorado e hobbies.

Naquele dia fazia um mês. Estava agora muito mais magra, com olheiras fundas e pretas como carvão, o brilho nos olhos nunca mais voltou sendo substituído por uma íris vazia. Isolou-se por completo no seu mundo amargo de tons escuros e deixou de estar com os seus amigos. Já não lia as suas bíblias e apenas passava as tardes no parque devido à rotina. Ficava lá com os seus olhos desabitados e agarrada aos joelhos. A sua cabeça estava cheia de memórias dolorosas, de gritos revoltados e o seu coração… esse já não parecia lá estar.

Estava um dia abafado de Verão e o sol queimava-lhe a pele. Vagarosamente percorreu o caminho do parque até casa sempre de olhos postos no chão, por pouco não foi atropelada na última passadeira para a sua humilde habitação. Abriu a porta e dirigiu-se para a casa de banho, lá tirou as sapatilhas de lona, as calças de ganga molhadas pelo suor e a camisa de linho. Olhou-se ao espelho para observar aquela rapariga frágil e perturbada em que se tornara. Passou a cara por água e ali ficou alguns segundos a olhar a pia branca. Dirigiu-se para o quarto e lá vestiu um vestido branco por cima do joelho com alças finas e calçou as sandálias castanhas de couro. Saiu de casa e caminhou em direcção à ponte vermelha, pelas ruas vazias onde só se conseguia ouvir o pouco vento que soprava e os passarinhos a cantar. Quando finalmente lá chegou descalçou-se e percorreu, em bicos de pés e com os olhos fechados, o corrimão da velha ponte. Por fim parou. Olhou para o pequeno riacho que corria por baixo de si (provavelmente pequeno devido à altura gigantesca da ponte) e para os penhascos afiados que abrangiam as margens do rio. Agarrou com toda a força o pequeno colar prateado que transportava fielmente ao peito (Era simples em forma de coração e com minúsculos brilhantes em redor). Nunca mais o conseguira tirar desde que ele morrera. “Não tenho medo… Não quero mais estar aqui! Não haverá nada pior do que permanecer viva num mundo onde não posso ver quem mais amo…”. E assim fechou os olhos e deixou-se cair, o vento ondulava-lhe o vestido branco e a adrenalina percorria-lhe todo o corpo.

"E assim chegou tudo ao fim, o negro… Tudo agora estava bem".

Tinha apenas 18 anos, era bela e tinha a vida toda pela frente. De que lhe serviam as roupas mais bonitas? A sua incondicional beleza? Num dia tem-se tudo, no outro não se tem nada…

1 comentário:

  1. " Ao fixar um destino, o teu futuro deixa de ser futuro, porque deixa de estar em aberto. Escolheu uma alternativa entre muitas outras."
    OSHO

    ( Continua minha querida, tudo o que interessa neste mundo é o amor, o amor pelas coisas que fazemos e pelos outros. ) Bj

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